Ocidente
Dia desses um amigo comentava a situação no Egito, condenando o apoio de Washington ao regime de Hosni Mubarak. Reclamou que os Estados Unidos só defendem a democracia quando os ditadores são seus inimigos. Não tirei-lhe a razão. Só que, embora pertinentes, as palavras de meu amigo pecavam pela obviedade. Qualquer pessoa informada sabe que não existem mocinhos e bandidos no cenário internacional; que as políticas imperialistas são feitas de interesses e métodos contraditórios; que os fins justificam meios nem sempre virtuosos. É a realpolitik defendida por pensadores e estadistas no correr dos séculos. A História não é uma linha reta e evolutiva, mas um emaranhado de controvérsias. Sim, os Estados Unidos apoiaram por três décadas um ditador que lhe foi conveniente no Oriente Médio. A questão é saber o que teria resultado de uma transição política naquele campo minado pelo extremismo, onde a liberdade é muitas vezes usada em seu próprio detrimento; onde a democracia costuma se enterrar com as próprias ferramentas. Sim, a política externa norte-americana é cheia de ambivalências. Resta saber quais alternativas o mundo oferece para aprimorá-las - ou substituí-las.
Hoje, as duas forças emergentes no mundo não são lá muito afeitas à democracia. De um lado, o mundo islâmico tende às ditaduras teocráticas. De outro, a China cabe nas impressões de Winston Churchill sobre a Rússia dos anos 1930: uma charada envolta num mistério dentro de um enigma. A cultura ocidental vem sendo acuada há várias décadas e a crise no Egito é só mais um lance potencialmente perdido para outras forças. Enquanto chineses e islâmicos ganham espaço sem delongas humanitárias, o Ocidente vive uma lenta e profunda desagregação causada, em grande parte, por suas próprias liberdades. Vantagens à parte, o individualismo e a diversidade geram mais discórdia do que coesão. Cada pessoa busca o seu caminho, sua realização, sua convicção. Já a opressão política tem o mérito de calar dissonâncias, de transformar populações inteiras num rebanho amestrado. Querendo ou não, eles marcham num sentido relativamente definido – contra o Ocidente.
Enquanto isso, poucos ocidentais estão realmente preocupados com os rumos da cultura que nos permite viver em estados laicos; que tem levado a ciência e a tecnologia a níveis extraordinários de desenvolvimento; que prestigia a razão, a legalidade e o respeito às liberdades individuais, estimulando a diversidade religiosa, cultural, política, sexual, etc. Eis o saldo do individualismo: um sistema onde o interesse pessoal prevalece sobre a solidez coletiva. O preço disso vem sendo pago com juros escorchantes e a insolvência já bate às nossas portas.
Não existem regimes perfeitos, mas existem os menos imperfeitos. Haverá, sempre, formas de minorar as imperfeições daquilo que se quer melhorar. Nossos direitos e liberdades não vieram do nada. Se aqui estamos, transitando pelo mundo com relativa autonomia e escolhendo nossos caminhos, é porque outras gerações lutaram por isso. Temos sabido manter o legado?
Aqueles que costumam criticar Israel para camuflar tendências antiamericanas deveriam entender que toda e qualquer ameaça ao estado judeu tem, como alvo, o próprio Ocidente. Por um lado, críticas fundadas serão sempre bem-vindas. Por outro, precisamos levar em conta que Israel é um patrimônio imprescindível para o Ocidente, ainda mais agora, quando a incerteza ronda um vizinho tão importante.
Ronaldo Wrobel
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